sexta-feira, 22 de abril de 2016

O barro de que somos feitos.

Nas minhas veias, pessoas, memórias, tempos, espaços.

“Um ser humano propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de remos, de montanhas, de naves, de ilhas, de habitações, de instrumentos, de pessoas. Pouco antes de morrer, analisa o labirinto de linhas desenhadas e vê, surpreso, a imagem do teu rosto." – Borges

Naquelas noites, os rituais mudavam. O chapéu de palha estava molhado. O alpendre, suspenso pelas velhas colunas crestadas, crestadas como a cor das telhas, entendia-se e avançava sobre o beiral do telhado cobrindo a casa e as nossas cabeças. À nossa frente, o teto do mundo, o céu, deixava cair, tempestuoso e simples, seu líquido puro. O candeeiro assentado no banco de cimento iluminava apenas os rostos de quem eu amava, acendia apenas o necessário. O cheiro do querosene singrava o ar, tocava o frio. A mudez humana justificava-se no repouso dos olhos. Nos ouvidos, a sagração da sinfonia natural das coisas. Escutávamos a procissão dos pingos d’água ruir sobre a casa, gotejar sobre a calha, descer pela bica. Para além daquele espaço, eu observava, sempre atenta, a paisagem dos olhos. A voz, eu sentia, estava lá. Tudo estava lá. 

Via-se no negror do açude uma réstia de luz, e via-se todo o resto quando o céu clarejava em cores e sons. Imaginávamos a boca do sangrador aguardando o corpo da água vencer seu limite e ganhar as ladeiras de pedra que ficavam no outro lado. Víamos a região alta da craibeira balançar como se dançasse com o vento, todavia firme sobre sua pedra. As veias antes áridas e secas da terra rompiam-se, fluídas e bêbadas. Pensávamos no desenho do rio, redesenhando-se. Na fisionomia e murmúrio das barragens e barreiros. Sentíamos pulsar forte aquele amor partilhado, a raiz comum, o Sertão mágico, tão incapaz de desistir da vida como seu povo, seus viventes. 

Eu desejava e ter com a chuva um abraço longo. Beber daquela água. Desejava lamear os pés com o barro que, no conjunto das minhas células (pessoas, lugares), desenha as linhas do meu rosto. Desejava visitar os meus oráculos. Subir nas minhas árvores. Cantar com os bichos. Dedilhar a nervura das folhas em orvalho. Desejava crepuscular os matos. Tocar as pedras geladas. Unir-me ao açude. Seguir o caminho dos riachos e ecoar gritos sob a cabeça da minha algaroba preferida. Mas, naquelas reuniões, eu criança, ficava. Ia ter com a chuva e sua verdura mais tardar. Pensava, ainda, no alcance daquilo. Em Gargalheiras, meu outro lugar. 

Deus foi o maior dos artistas. Nos deu o poder de guardar o eterno. A matéria, a imaterialidade. O outro.

Isso é sagrado. 

O Tempo me ensina. Pessoas me ensinaram/ensinam. Ver o sagrado, viver o eterno, momentos em que a felicidade é o ar e respira-se completude. Completude "a despeito de" é tarefa árdua.

O sagrado estava nos capins, nas serras e pedaços de gargalheiras, nos rostos sorrisos frontes, nas pessoas que aqui se fazem e nas pessoas que "se encantaram" e cujo mínimo respingo de lembrança afoga meus olhos de saudade. O sagrado estava no riacho, nos quintais, nas velhas tigelas de aço que usávamos para salvar a água do céu. Estava na música, gota a gota, no marejar dos sinos. Na dança. Nas cantorias. Na música. No silêncio. Na simplicidade. Nas velhas árvores (tive desde castanheiras a seriguela). Nas brincadeiras e armazéns de esconderijo. Estava no garimpar das manhãs. No singrar das brasas do fogão à lenha. Nas cozinhas. Nos cheiros e sabores. Nos muros. Nos moinhos de milho. Nos animais. No versejar vibrante das relvas. No desflorescer dos dias e das estações sertanejas. Estava nos oníricos relicários. No trovar dos pássaros filósofos e poetas, sábios observadores da vida (eles sempre cantam, nunca vi um pássaro-filósofo-poeta triste). Nos pisos bem varridos e meus pés descalços. Estava no vaga-lume que minha avó Ana me deu dentro de uma caixa de fósforos e que depois foi voar perto da porta. Na rede que guardava o cheiro da minha avó Toinha. No espectro mágico das casas, dos lugares. No baixo telhado que acendia e apagava enquanto eu lia, como se houvesse um eclipse das nuvens com o sol em cima da velha casa. O sagrado está na inudez desses sentimentos. Nas linguagens paisagens apreendidas pelos "olhos", meus olhos. No outro, principalmente. No outro.

O sagrado está.

O eterno guardado Vive. 

Espectro puro e completo. Tudo me ensina liberdade, coragem, amor, beleza sem fim. Continuo no esforço diário de ver o sagrado, viver o eterno. Estudar o céu, como meu avô Basto. Contar histórias sem que o tempo importe, como meu avô Tantão. Colecionar as cores na nascente do sol e na sua despedida. Me apaixonar pelos meus dias, por meus casulos. Pertencimento, identidade. Tudo ensina que não há vazio nesta vida. Que os sentidos abrasam, nos habitam. Que a alma deve chorar às vezes. Que as nossas escolhas devem nos aproximar dos que somos e não o contrário. Sinto ver um pouco dos traços do meu rosto, mas sinto tudo infinito, grande demais para minha compreensão, para o verbo. 


madrugada de abril.

Silva Dantas, sertaneja nordestina, brasileira. O barro de que sou feita jamais será dito.

trazemos o fogo
a estrada
o outro.



                               



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